Por Murillo C. Freitas, especialista em Hipnose Não Verbal, Magnetismo e Transformação Pessoal. Terapeuta, pesquisador e autor de obras como Lilith — Anjo ou Demônio (Editora Appris)
Há histórias que se tornam tão poderosas que, depois de algum tempo, já não sabemos exatamente onde terminam os textos antigos e onde começa aquilo que as gerações acrescentaram a eles.
A história de Lilith como primeira mulher de Adão é uma delas.
É comum encontrarmos a afirmação de que Lilith teria sido a primeira esposa de Adão, criada da mesma terra que ele e, por isso, recusando-se a aceitar uma posição de submissão. Depois de entrar em conflito com Adão, ela teria abandonado o Éden, e somente então Eva teria sido criada.
A narrativa é fascinante.
Mas há um problema histórico que precisa ser colocado desde o início: essa história não está no livro do Gênesis. Ela aparece, de forma completa, em um texto judaico medieval chamado Alfabeto de Ben Sira, escrito muitos séculos depois da Bíblia hebraica.
E isso não diminui Lilith. Ao contrário. Quando descobrimos de onde essa tradição realmente veio, encontramos uma personagem talvez ainda mais interessante.
Os Dois Relatos da Criação no Gênesis: O Que os Textos Realmente Afirmam
O primeiro ponto que precisamos compreender é que o livro do Gênesis apresenta dois relatos da criação humana em sequência.
Em Gênesis 1:27 encontramos:
“Criou Deus, pois, o homem à sua imagem […] homem e mulher os criou.”
Homem e mulher aparecem juntos na formulação.
Pouco depois, em Gênesis 2, encontramos outra descrição. Primeiro o homem é formado do pó da terra. Depois são apresentados os animais e, finalmente, diante da ausência de uma companhia adequada para o homem, Deus faz a mulher a partir de seu lado, tradicionalmente traduzido como a “costela” de Adão. É essa mulher que posteriormente recebe o nome de Eva.
Essas diferenças entre os dois relatos da criação produziram, ao longo dos séculos, inúmeras interpretações. Mas precisamos ter cuidado.
O Gênesis não afirma que existiram duas mulheres: uma primeira chamada Lilith e depois Eva. Essa associação pertence ao desenvolvimento posterior da tradição, e é justamente ali que a história começa a ficar interessante.
Lilith Aparece na Bíblia? A Referência em Isaías 34:14
Sim, o nome aparece, mas não como esposa de Adão. O termo hebraico lilit surge uma única vez na Bíblia hebraica, em Isaías 34:14, dentro de uma descrição poética da devastação de Edom. Ali ela é uma criatura noturna que habita ruínas, ao lado de animais selvagens. Nenhuma linha do texto bíblico a relaciona ao Éden, a Adão ou à criação da humanidade.
O significado exato da palavra é discutido, e as traduções variam consideravelmente. Dependendo da versão bíblica, encontramos referências a criatura noturna, animal noturno, espectro, coruja, demônio ou outras formas semelhantes.
Portanto, existe uma referência bíblica associada ao nome.
Mas aquela figura de Isaías não é apresentada como esposa de Adão. Essa distinção é fundamental, e é exatamente ela que costuma desaparecer quando a história circula pela internet.
O que a tradição judaica posterior acrescentou
A própria tradição judaica posteriormente desenvolveria Lilith como uma figura demoníaca relacionada à noite. Textos rabínicos e passagens do Talmude fazem referências a Lilith e aos lilin, inserindo-os dentro de uma demonologia judaica muito mais ampla, povoada por espíritos noturnos, criaturas híbridas e entidades associadas a lugares desertos.
Ainda assim, continuamos sem encontrar ali a história completa da mulher que teria antecedido Eva.
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O Alfabeto de Ben Sira: Onde a História de Lilith e Adão Realmente Começa
Um dos textos fundamentais para compreendermos a transformação de Lilith em primeira companheira de Adão é o chamado Alfabeto de Ben Sira (Alphabet of Ben Sira).
Trata-se de uma obra medieval, geralmente situada entre os séculos VIII e X da era cristã, muito posterior aos textos do Gênesis. Um escrito pseudepigráfico, isto é, atribuído a um autor que não o escreveu. E aqui finalmente encontramos os elementos essenciais da história que se tornaria famosa.
O argumento de Lilith
Lilith e Adão teriam sido criados da terra. O conflito surge porque Lilith se recusa a aceitar uma posição inferior a Adão. A lógica atribuída a ela é poderosa: se ambos vieram da mesma matéria, por que um deveria estar acima do outro?
A discussão possui também uma dimensão sexual. Lilith recusa a posição de submissão nas relações com Adão. O conflito se torna insustentável e ela parte, pronunciando o Nome divino e deixando o Éden por vontade própria.
É nesse universo narrativo que começa a tomar forma a Lilith que atravessaria os séculos.
A Jewish Encyclopedia, ao tratar da tradição sobre Lilith, distingue as referências talmúdicas da elaboração posterior e relaciona explicitamente a tradição de Lilith ligada a Adão ao chamado Pseudo-Sirach, isto é, ao Alfabeto de Ben Sira.
A diferença que muda tudo
Portanto, quando alguém afirma simplesmente:
“A Bíblia conta que Lilith foi a primeira mulher de Adão”, a afirmação não é historicamente correta.
Mas dizer:
“Existe uma tradição judaica posterior segundo a qual Lilith teria sido uma companheira anterior de Adão”, é outra coisa.
E essa diferença é enorme. Não por preciosismo acadêmico, mas porque ela revela algo que a versão simplificada esconde: Lilith não foi apagada da Bíblia. Ela foi construída fora dela, ao longo de mais de mil anos, por pessoas que precisavam dar nome a alguma coisa.
Sobre este assunto, escrevi um livro
Lilith — Anjo ou Demônio (Editora Appris) percorre essa trajetória por inteiro: das entidades mesopotâmicas aos textos rabínicos, do Alfabeto de Ben Sira à Cabala, e das interpretações demonológicas às leituras contemporâneas do arquétipo feminino.
Lilith na Mesopotâmia: Uma Figura Muito Mais Antiga do Que Imaginamos
Outro erro comum é imaginar que Lilith tenha sido inventada pelo Alfabeto de Ben Sira. Não foi.
A figura possui raízes muito mais antigas. Existem paralelos consistentes entre Lilith e entidades demoníacas presentes nas culturas da antiga Mesopotâmia. A própria Jewish Encyclopedia registra a discussão sobre relações entre Lilith e figuras demonológicas assírias, além de mostrar como sua imagem posteriormente se desenvolveu dentro da tradição judaica.
As entidades que vieram antes
Na literatura suméria e acádia encontramos um pequeno grupo de espíritos cujos nomes soam familiares:
- Lilû — espírito masculino associado ao vento e à noite;
- Lilītu — sua contraparte feminina, entidade noturna ligada ao desejo e ao perigo;
- Ardat-Lilî — frequentemente descrita como a “jovem” ou “donzela” espectral, associada à esterilidade e à sedução;
- Lamashtu — figura distinta, mas próxima em função: temida por ameaçar gestantes e recém-nascidos, e combatida com amuletos.
Não se trata de dizer que Lilith “é” alguma dessas entidades. Trata-se de reconhecer que existiu um campo simbólico anterior, noite, vento, sexualidade, risco à maternidade, do qual sua figura acabou herdando traços.
Uma advertência necessária sobre a árvore huluppu
É comum encontrarmos a afirmação de que Lilith apareceria no ciclo sumério de Inanna e a árvore huluppu, texto ligado à tradição de Gilgámesh. Essa leitura vem de traduções antigas, sobretudo de Samuel Noah Kramer, que verteram a expressão ki-sikil-lil-lá-ke como “Lilith”.
Boa parte da assiriologia contemporânea considera essa identificação frágil. A expressão pode designar simplesmente uma “donzela dos ventos” ou um espírito feminino genérico, sem qualquer relação direta com a Lilith judaica.
Menciono isso porque é exatamente o mesmo tipo de deslize que investigamos neste artigo: uma tradução torna-se citação, a citação torna-se certeza, e a certeza torna-se história.
O mito como processo
Isso significa que estamos diante de um processo histórico.
Mitos não surgem necessariamente prontos. Eles viajam. Misturam-se. São reinterpretados.
Uma determinada entidade pode atravessar culturas, receber outros nomes, adquirir novas características e, séculos depois, participar de uma narrativa completamente diferente daquela em que originalmente aparecia.
Foi exatamente essa longa transformação que tornou Lilith tão fascinante.
Leitura relacionada: Lilith: Mais do Que uma Personagem — Um Espelho da Mulher Contemporânea
De Demônio a Símbolo de Liberdade: Como Lilith Foi Reinterpretada
Durante grande parte de sua história, Lilith esteve longe da imagem libertária que muitas pessoas atribuem a ela atualmente.
Ela foi associada ao perigo noturno, à sexualidade ameaçadora, aos demônios e até à morte de crianças. Durante séculos circularam amuletos e práticas destinadas justamente à proteção de mulheres e recém-nascidos contra Lilith. A tradição judaica registra inclusive fórmulas e nomes angelicais utilizados como proteção contra sua suposta ação, os três anjos Senoy, Sansenoy e Semangelof, cujos nomes eram inscritos em amuletos pendurados junto ao berço.
Na literatura da Cabala, especialmente a partir do Zohar (século XIII), sua figura ganha ainda outra dimensão: Lilith passa a ocupar um lugar cosmológico, associada ao lado sombrio da criação e a uma espécie de contraparte do feminino sagrado.
Isso nos mostra algo importante: a Lilith feminista é uma releitura moderna, consolidada sobretudo a partir dos anos 1970.
E dizer isso não é desqualificá-la. Símbolos mudam.
Talvez seja exatamente essa capacidade de transformação que explique sua sobrevivência. A mulher que em determinado momento foi transformada em demônio por não aceitar determinada ordem pode, em outro contexto histórico, ser reinterpretada como símbolo daquela que recusou a submissão.
A personagem permanece. O significado muda.
Por Que Continuamos Precisando de Lilith?
Quando escrevi Lilith — Anjo ou Demônio, não me interessava simplesmente decidir se Lilith “existiu” como personagem histórica. Essa talvez seja a pergunta menos interessante.
Interessa-me compreender por que continuamos precisando dela.
Por que uma personagem construída e reconstruída durante tantos séculos continua provocando fascínio? Por que algumas pessoas a enxergam como demônio e outras como símbolo de liberdade?
Talvez porque Lilith toque em algo profundamente humano: o conflito entre aquilo que esperam que sejamos e aquilo que decidimos ser.
Quando uma sociedade teme determinado comportamento, frequentemente transforma esse comportamento em ameaça. E durante grande parte da história humana, poucas coisas foram consideradas tão ameaçadoras quanto uma mulher que controla a própria sexualidade, questiona a autoridade e se recusa a ocupar silenciosamente o lugar que lhe determinaram.
O que a clínica ensina sobre Lilith
Como terapeuta, observo esse mesmo movimento acontecer em escala individual, dentro do consultório, com frequência.
Aquilo que não conseguimos integrar, nós expulsamos. Damos outro nome, colocamos do lado de fora e passamos a temer. A tradição chama isso de demônio. A psicologia analítica chamou de sombra: o conjunto de conteúdos que a consciência não reconhece como seus e projeta no mundo, ou no outro.
Lilith funciona como um caso exemplar desse mecanismo. Uma parte do humano, desejo, autonomia, recusa, foi separada, personificada e transformada em criatura noturna. Não é difícil reconhecer o processo. Muitas pessoas fazem isso consigo mesmas todos os dias, em silêncio, sem nenhuma mitologia envolvida.
Trabalhar clinicamente com arquétipos não significa acreditar literalmente neles. Significa perceber que essas figuras oferecem uma linguagem para aquilo que ainda não conseguimos nomear em primeira pessoa. Às vezes é mais fácil falar de Lilith do que dizer: “existe em mim algo que me ensinaram a temer.”
Não precisamos falsificar a história para perceber a potência desse símbolo. Muito pelo contrário.
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Lilith Não Precisa Estar no Gênesis Para Ser Poderosa
Existe uma tendência curiosa quando lidamos com personagens míticas: imaginamos que quanto mais antiga for uma história, mais verdadeira ou importante ela se torna. Não necessariamente.
Lilith não precisa ter sido literalmente a primeira esposa de Adão para possuir enorme importância cultural.
Ela existe como construção mitológica, religiosa, literária, psicológica e social. E talvez justamente por isso seja tão difícil aprisioná-la em uma única definição.
Demônio? Sedutora? Espírito noturno? Primeira mulher de Adão? Rebelde? Arquétipo? Símbolo de autonomia feminina?
Em momentos diferentes da história, ela foi tudo isso.
Quando perguntamos se Lilith é anjo ou demônio, talvez estejamos repetindo uma necessidade profundamente humana de dividir o mundo entre extremos. Mas Lilith parece escapar justamente dessa divisão.
Ela habita a fronteira. Entre o sagrado e o profano. Entre o medo e o desejo. Entre submissão e liberdade. Entre aquilo que a tradição disse que ela era e aquilo que cada geração decidiu enxergar nela.
E talvez seja justamente por isso que, tantos séculos depois, ainda estamos falando sobre ela.
Não porque encontramos Lilith caminhando ao lado de Adão nas páginas do Gênesis. Mas porque, de alguma maneira, Lilith nunca deixou de caminhar ao nosso lado.
Perguntas Frequentes Sobre Lilith
Lilith está na Bíblia? O termo hebraico lilit aparece uma única vez na Bíblia hebraica, em Isaías 34:14, dentro de uma descrição poética da devastação de Edom. Ali ela é uma criatura noturna associada a ruínas. Não há, em nenhum livro bíblico, referência a Lilith como esposa de Adão.
Quem foi a primeira mulher de Adão segundo a Bíblia? Segundo o Gênesis, Eva. O livro apresenta dois relatos da criação (Gênesis 1:27 e Gênesis 2), mas em nenhum deles há menção a uma companheira anterior a ela.
De onde veio a história de Lilith como primeira esposa de Adão? Do Alfabeto de Ben Sira, obra judaica medieval pseudepigráfica, geralmente datada entre os séculos VIII e X. É nesse texto que aparecem os elementos completos da narrativa: a criação a partir da terra, a recusa da submissão e a saída do Éden.
O que significa o nome Lilith? O nome é habitualmente relacionado à raiz semítica associada à noite e às entidades mesopotâmicas lilû, lilītu e ardat-lilî, espíritos ligados ao vento, à noite e ao desejo. A etimologia exata permanece objeto de discussão entre especialistas.
Lilith é anjo ou demônio? Depende inteiramente da tradição consultada e da época. A demonologia judaica e a Cabala a apresentam como figura demoníaca; a releitura moderna, a partir dos anos 1970, a interpreta como símbolo de autonomia feminina. Essa ambiguidade é justamente o que a mantém viva.
Lilith aparece nos textos sumérios? A identificação de Lilith no episódio da árvore huluppu, ligado ao ciclo de Inanna e Gilgámesh, vem de traduções antigas e é hoje considerada frágil por boa parte da assiriologia. A expressão original pode designar apenas um espírito feminino genérico.
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Referências
- FREITAS, Murillo C. Lilith — Anjo ou Demônio. Curitiba: Editora Appris.
- Bíblia Hebraica — Gênesis 1–3; Isaías 34:14. Consulta ao texto original em Sefaria.
- Alphabet of Ben Sira — obra medieval pseudepigráfica associada à consolidação da narrativa de Lilith como primeira companheira de Adão.
- Jewish Encyclopedia — verbetes “Lilith”, “Demonology” e “Ben Sira, Alphabet of”. Disponível em jewishencyclopedia.com.
- Zohar — desenvolvimento cabalístico da figura de Lilith no misticismo judaico do século XIII.
Murillo C. Freitas é terapeuta, pesquisador e pioneiro no ensino de Hipnose Clínica e Espiritualidade no Brasil. Autor de Lilith — Anjo ou Demônio pela Editora Appris.
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