Por Murillo C. Freitas, especialista em Hipnose Não Verbal, Magnetismo e Transformação Pessoal. Terapeuta, pesquisador e autor de obras como Lilith — Anjo ou Demônio (Editora Appris)
O Que É Hipnose de Verdade? Desmistificando o Estado Hipnótico
Há uma pergunta que me acompanha há muitos anos: quando uma pessoa entra em um estado profundo de consciência e vivencia algo que interpreta como espiritual, o que realmente aconteceu?
Foi apenas uma experiência produzida pelo cérebro? Foi uma construção do inconsciente? Foi resultado da sugestão? Ou existe alguma dimensão da experiência humana que ainda não compreendemos suficientemente?
Eu poderia escolher uma resposta confortável. Poderia afirmar que tudo é espiritual. Também poderia seguir pelo caminho oposto e dizer que tudo é apenas atividade cerebral.
Prefiro não fazer nenhuma das duas coisas.
Porque quando entramos seriamente no estudo da hipnose, dos estados alterados de consciência e da espiritualidade, uma das primeiras coisas que precisamos abandonar é a necessidade de ter respostas para tudo. É justamente nesse território que começa a investigação
Apesar do nome, hipnose não significa simplesmente dormir.
A pessoa hipnotizada pode permanecer consciente, ouvir o que acontece ao redor, responder, movimentar-se e posteriormente lembrar-se de grande parte da experiência. O estado hipnótico envolve alterações importantes na atenção, na percepção e na maneira como determinadas sugestões são experimentadas.
Uma sugestão pode modificar temporariamente a percepção de dor, alterar a experiência subjetiva de uma sensação, favorecer determinadas imagens mentais ou produzir mudanças na forma como o indivíduo percebe o próprio corpo.
Isso não significa que a hipnose seja capaz de fazer qualquer coisa. Também não significa controle absoluto da mente. A imagem do hipnotizador dominando completamente outra pessoa pertence muito mais ao imaginário popular do que àquilo que conhecemos sobre hipnose.
Mas existe algo extraordinário nesse fenômeno: a mente humana pode modificar profundamente a experiência da realidade sem que a realidade externa necessariamente tenha mudado. E esse ponto é fundamental quando começamos a discutir espiritualidade.
Quando a Experiência Espiritual Parece Absolutamente Real
Quem trabalha com estados profundos de consciência conhece relatos impressionantes:
- Sensação de expansão e perda temporária da percepção corporal
- Alteração da noção de tempo
- Imagens extremamente vívidas
- Sensação de presença e percepção de energia
- Experiência de estar fora do próprio corpo
- Encontro com pessoas falecidas
- Contato com aquilo que o indivíduo interpreta como guias, espíritos, entidades ou outras formas de consciência
Para quem observa de fora, tudo isso pode ser tratado simplesmente como uma experiência subjetiva. Para quem vivencia, porém, pode ser absolutamente real.
E aqui encontramos um dos grandes problemas dessa discussão.
A intensidade de uma experiência não comprova necessariamente a interpretação que fazemos dela.
Uma pessoa pode ter vivido algo profundamente transformador e ainda assim não termos condições de afirmar objetivamente qual foi a origem daquele fenômeno. Essa distinção é indispensável.
Negar a experiência porque não podemos comprovar sua causa seria intelectualmente pobre. Mas transformar automaticamente a experiência em prova de uma realidade espiritual também seria.
O Cérebro Participa de Toda Experiência Humana. E Isso Não Resolve a Questão
Existe uma frase que costumo considerar importante: encontrar atividade cerebral durante uma experiência espiritual não prova que a espiritualidade seja uma ilusão.
Quando alguém ama, o cérebro participa. Quando alguém sente medo, o cérebro participa. Quando alguém contempla uma obra de arte, o cérebro participa. Quando alguém reza, medita ou entra em transe, o cérebro também participa.
Seria estranho se não participasse.
Portanto, demonstrar que determinadas regiões ou redes cerebrais apresentam mudanças durante uma experiência não resolve automaticamente a questão sobre a natureza última daquela experiência.
A neurociência pode investigar mecanismos. Pode estudar atenção, percepção, memória, emoção, consciência corporal e inúmeros outros aspectos envolvidos nesses estados. Mas existe uma diferença entre explicar como uma experiência acontece no organismo e determinar o que ela significa ontologicamente.
São perguntas diferentes.
O Perigo da Sugestão: Por Que Método É Fundamental
Aqui entramos em um ponto que considero fundamental para qualquer profissional que trabalhe na fronteira entre hipnose e espiritualidade.
A hipnose pode aumentar a influência da sugestão sobre determinadas experiências. Isso exige responsabilidade.
Imagine uma pessoa em estado hipnótico que começa a perceber uma imagem. O profissional pergunta:
“Você está vendo um espírito?”
A pergunta já contém uma interpretação.
Seria muito diferente perguntar:
“O que você percebe?”
Na primeira situação, oferecemos uma resposta antes que a experiência se desenvolva. Na segunda, permitimos que a pessoa descreva aquilo que está acontecendo.
Essa diferença parece pequena, mas metodologicamente é enorme.
Quanto mais extraordinária for a experiência, maior deve ser o cuidado para não contaminá-la com expectativas do terapeuta, do professor ou do próprio grupo. Esse princípio deveria valer tanto para quem acredita profundamente em fenômenos espirituais quanto para quem não acredita neles.
Memória, Hipnose e Vidas Passadas: O Que a Ciência Nos Diz
Outro ponto delicado envolve as experiências que parecem revelar acontecimentos esquecidos, vidas passadas ou episódios extremamente remotos.
Nossa memória não funciona como uma câmera que registra acontecimentos e posteriormente os reproduz exatamente. Memórias são reconstruídas. Podem sofrer influência de expectativas, informações posteriores, emoções, imaginação e sugestão.
Por isso, uma lembrança extremamente vívida surgida durante a hipnose não deve ser automaticamente tratada como registro histórico verdadeiro.
Isso não significa que a experiência seja inútil. Ela pode possuir enorme significado psicológico ou simbólico. Uma cena experimentada durante um transe pode representar conflitos, medos, desejos ou conteúdos profundamente relevantes para aquela pessoa.
Mas significado psicológico e comprovação histórica são coisas diferentes. Precisamos aprender a separar experiência de interpretação.
E sobre a palavra “imaginação” — ela é frequentemente utilizada como se significasse falsidade. Não significa. A imaginação é uma das capacidades mais extraordinárias da consciência humana. Classificar simplesmente uma experiência como “imaginação” não explica muita coisa.
A verdadeira pergunta continua sendo: por que aquela experiência surgiu daquela maneira, naquele momento e com aquele significado?
Hipnose Pode Provar a Existência do Espírito? A Resposta Honesta
Até hoje, não existe evidência científica estabelecida que permita utilizar a hipnose como prova da existência de espíritos, vidas passadas ou dimensões extrafísicas.
Essa afirmação pode incomodar algumas pessoas. Mas ela precisa ser feita.
Ao mesmo tempo, a inexistência dessa comprovação não significa que a ciência tenha demonstrado definitivamente que toda experiência espiritual seja falsa. Também seria extrapolar aquilo que sabemos.
A posição intelectualmente mais responsável está entre essas duas certezas.
Podemos investigar. Podemos experimentar. Podemos comparar relatos. Podemos estudar alterações de consciência. Podemos observar fenômenos. Mas precisamos ter coragem suficiente para permitir que algumas perguntas permaneçam abertas.
Existe uma ideia equivocada de que um professor precisa ter resposta para tudo. Penso exatamente o contrário.
Quanto mais avançamos no estudo da consciência, mais percebemos a dimensão daquilo que ainda desconhecemos. Dizer “não sei” não enfraquece uma investigação. Pode ser justamente o início dela.
Crença é crença. Hipótese é hipótese. Experiência é experiência. Evidência é evidência.
Misturar essas categorias talvez seja um dos maiores problemas existentes no estudo contemporâneo da espiritualidade.
Entre a Credulidade e a Negação Existe um Caminho
É esse caminho que me interessa.
Não quero uma espiritualidade que tenha medo da ciência. Também não quero uma ciência transformada em argumento de autoridade para ridicularizar tudo aquilo que ainda não compreendemos.
Quero investigação. Quero método. Quero experiência. Quero questionamento. E, principalmente, quero preservar a liberdade de mudar de opinião quando as evidências exigirem.
Minha relação com a espiritualidade nunca significou abandonar o pensamento crítico. Para mim, deveria significar exatamente o contrário. Se determinado fenômeno é verdadeiro, não deveria precisar ser protegido de perguntas.
Depois de tantos anos estudando hipnose clínica, magnetismo, estados alterados de consciência e espiritualidade, talvez uma das conclusões mais importantes a que cheguei seja justamente esta:
o mistério não começa onde termina o conhecimento. O mistério começa quando reconhecemos honestamente os limites do conhecimento que possuímos.
Entre afirmar que “foi um espírito” e afirmar que “foi apenas o cérebro”, existe uma pergunta muito mais interessante:
o que aconteceu?
Enquanto continuarmos fazendo essa pergunta com seriedade, sem medo das respostas e sem necessidade de fabricá-las, estaremos verdadeiramente investigando.
Talvez um dia descubramos que muitos fenômenos considerados espirituais possuem explicações inteiramente naturais. Talvez descubramos aspectos da consciência que hoje sequer conseguimos imaginar. Talvez algumas perguntas permaneçam conosco por muito tempo.
Não sei.
E, para mim, poder dizer “não sei, mas quero investigar” continua sendo uma das posições mais honestas diante dos grandes mistérios da consciência humana.
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Um forte abraço,
Murillo C. Freitas
Terapeuta, pesquisador e pioneiro no ensino de Hipnose Clínica e Espiritualidade no Brasil. — Premiado pelo LAQI 2025 — Autor de obras sobre Kundalini e Lilith em São Paulo.
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